
O jornalista Eurípedes Alcântara está na Editora Abril há 25 anos, e sempre atuou em Veja. Começou como chefe da sucursal de Belo Horizonte e, em seguida foi editor-assistente, editor, editor-executivo, correspondente em Nova York e redator-chefe, até assumir a diretoria de redação, em fevereiro de 2004.
Nesta entrevista, Alcântara relata o início de sua carreira – quando cobriu as greves no fim do regime militar e escreveu para um jornal trotskista –, a sua trajetória na Abril e explica se existe afinal um ‘método Veja’ de fazer jornalismo, além de comentar ‘o caso Nassif’.
Como foi o início da sua carreira?
Nesta entrevista, Alcântara relata o início de sua carreira – quando cobriu as greves no fim do regime militar e escreveu para um jornal trotskista –, a sua trajetória na Abril e explica se existe afinal um ‘método Veja’ de fazer jornalismo, além de comentar ‘o caso Nassif’.
Como foi o início da sua carreira?
Comecei como estagiário do Diário de Minas, em Belo Horizonte. Minhas primeiras coberturas foram das greves que começavam a ser organizadas no final do regime militar. A direção do jornal não se empenhava muito em cobrir esses assuntos menos por medo da reação dos militares. A razão central da timidez na cobertura das greves se devia a compromissos da direção do jornal com políticos civis do estado. Eles eram amigos dos secretários de educação e da segurança e não permitiam que os eventos em que eles ficavam mal tivessem destaque na cobertura diária. Então, o que não me permitiam publicar ali eu descarregava no Em Tempo, um jornal da esquerda trotskista, de circulação nacional, para quem eu escrevia artigos semanais. Em seguida, fui contratado pela sucursal de Belo Horizonte do jornal O Globo, onde comecei a travar contato com as exigências de qualidade jornalística, de exatidão e de independência dos governos. O Globo era identificado com certas posições conservadores do regime dos generais mas não lhes prestava submissão. Uma bela escola, portanto. No começo dos anos 80, fui convidado para dirigir a sucursal de VEJA em Belo Horizonte. Aceitei. Fiquei um ano no posto e me convocaram para ser editor-assistente na sede da revista em São Paulo, de onde só saí para trabalhar como correspondente em Nova York, por quatro anos, entre 1994 e 1998. Todo começo de carreira é uma obra aberta. Muitas coisas podem dar errado e minar sua trajetória: um chefe despreparado, uma empresa desatenta com seus profissionais, a tentação de seguir carreiras paralelas a de jornalista, como assessor de imprensa, consultor e outras. O primordial é ser do ramo e ter consciência disso. Em segundo, perseverança e resiliência para se levantar depois dos tombos inevitáveis. Em terceiro, curiosidade insaciável e gosto pelo idioma. Antes de tudo ser honesto, ‘até por malandragem’, como dizia um dos meus grandes chefes do passado em VEJA.
Gostaria de ouvir um pouco sobre a sua trajetória em Veja, em especial, a época em que o senhor foi correspondente em Nova York – sonho de muitos Jornalistas.
Lamento se decepciono mas acho que a idade de ouro dos correspondentes acabou. Quando não existia internet. TV a cabo e viajar ao exterior era coisa rara e cara, o correspondente servia como os olhos e ouvidos do leitor em terras estranhas. Hoje esse assombro com o novo, com o pitoresco, com o diferente quase não existe mais. O mundo se globalizou mesmo. Quando trabalhei em Nova York ainda havia uma certa aura de curiosidade sobre a cidade e, em especial, sobre os Estados Unidos e a nascente economia da tecnologia da informação. Os EUA viviam sua primeira década como potência hegemônica, depois da derrocada da URSS. A internet começava a mostrar o que ainda viria ser. A economia globalizada dava os primeiros mas decisivos passos rumo à Ásia, Europa e América Latina. O Brasil estava em uma posição de destaque mundial. Ocupava tanto as atenções quanto a China hoje. Essa conjunção de fatores facilitou enormemente minha vida profissional. O nome do Brasil abria portas. Não havia um líder de empresa ou cientista que não quisesse falar com os brasileiros através da VEJA. Fiz uma colheita generosa. Em quatro anos fiz 18 reportagens de capa para VEJA e 22 entrevistas de Páginas Amarelas. Foi um dos períodos mais felizes da minha carreira. Dificilmente aqueles fatores que citei acima se harmonizarão de novo em Nova York. Mas quem sabe em Beijing ?
Depois de tantos anos na revista, assumir o cargo de diretor de redação foi uma conquista e, ao mesmo tempo, uma construção?
As posições de mando na imprensa são assumidas pelos mais pacientes e mais focados profissionais. No decorrer da carreira, em especial, quando ela é feita quase toda em uma redação, as pessoas conseguem construir uma reputação. Seus pares e superiores aprendem quais são seus pontos fortes e fracos. Não existem sustos quando as promoções são feitas. Na verdade, elas são decididas muito antes de serem anunciadas. Quando há transparência, competição e meritocracia, como é o caso da redação da VEJA, o diretor tem mais o papel de um orientador do que o de um chefe disciplinador. Foi uma conquista pra mim chegar a ser diretor de VEJA mas não é uma dádiva, um surpresa.
Lembro da matéria que você escreveu para a revista Bravo! sobre o show do Bob Dylan, como consegue acumular tantas atividades?
Escrever e ser repórter é a base da nossa profissão. O resto é burocracia. Um diretor de redação tem que continuar escrevendo e apurando.
Quais são as marcas de Veja? Existe um ‘método Veja’ de fazer Jornalismo?
A Veja tem mais uma cultura e uma tradição do que mesmo um método. A marca da revista, muitas vezes pouco compreendida em escolas de jornalismo, é não se refugiar sob o conforto da imparcialidade. Veja tem e defende suas posições e princípios, sem rodeios. A Veja acredita na democracia e na economia de mercado.
O senhor acha que o conteúdo opinativo é o que há de mais valioso em Veja?
O mais valioso em Veja é a reportagem, a capacidade de trazer á luz um assunto que não interessa em nada aos poderosos no governo, qualquer governo.
A revista nunca se furtou ao debate; no entanto, a partir do governo Lula, foi acusada de ‘radicalizar o seu próprio estilo’, a que se deve este fato?
Veja reagiu antes e com mais vigor às tentativas liberticidadas do governo, em especial no primeiro mandato, quanto o Brasil vivia em lua de mel com seu novo presidente. Continuamos fazendo jornalismo quando boa parte da imprensa se limitava a saborear a chegada ao poder de um candidato popular e muito amado nas redações. Como no Congresso as oposições estavam – e ainda, de certa forma, estão – desarticuladas, Veja se viu nessa incômoda situação de ser a única oposição real ao governo Lula. Não é uma posição confortável mas, a meu ver, inevitável. Não existe jornalismo a favor.
Por que o senhor está processando Luís Nassif?
O departamento jurídico da Abril me impede de comentar esse caso. A resposta que posso dar é que estamos procurando na Justiça de São Paulo as reparações devidas pelos ataques criminosos de que fomos alvo.
Ir atrás da verdade deve ser o principal sonho de qualquer jovem repórter?
Buscar a verdade é, no fundo, nossa única função. A busca desinteressada e honesta da verdade. Encontrá-la é outra coisa.
Jornal Laboratório – Maio.
